Charlton Heston
Luis Fernando Verissimo
Os recém-chegados têm direito a um drinque de cortesia e a um "tour" guiado pelas instalações do Inferno (as salas de tortura, as fornalhas, a sauna, etc.), para se ambientarem no lugar e ficarem sabendo o que os espera na eternidade. Um dos atrativos do "tour" é o encontro com celebridades, grandes pecadores da História que passam correndo, perseguidos por diabretes que os espetam com seus tridentes ou arrastados entre um martírio e outro.
Há dias, um grupo de recém-chegados passava pela Sala de Contrição Inútil, onde mortos recentes são postos para meditar sobre seus pecados e se arrependerem, não que isso vá fazer muita diferença, e teve uma surpresa:
- Charlton Heston!??
- É - disse o guia. - Em pessoa. Ou, no caso, em espírito.
- Mas ele...
- Pois é. Nós também nos surpreendemos. É verdade que houve a ligação dele com a tal associação nacional de rifles, responsável por alguns milhares de mortos nos Estados Unidos com o seu lóbi vitorioso contra o controlo de armas. Mas, afinal, era a posição dele, e uma posição sincera.
- Seria pelo fato de ele ter sido um conservador?
- Não. Ao contrário do que diz a esquerda, os conservadores não vêm automaticamente para o Inferno.
- Seria um castigo pelas suas atuações no cinema?
- Também não. Ele não era tão ruim assim. Tinha um físico poderoso. Um queixo imponente. Certos papéis, ninguém conseguiria fazer como ele. Aliás, é por isso que ele está aqui.
- Ele veio para o Inferno porque só ele poderia fazer certos papéis?!
- É. Coisas da política - disse o guia, apontando para o alto. - Lá de cima...
Aparentemente, ao saber da morte de Charlton Heston, Deus se preocupara. Não havia razão para não trazê-lo para o Céu, talvez com uma breve passagem pelo Purgatório por causa daquela questão das armas. Mas aí começariam as comparações. E não demorariam a concluir que físico mesmo para o papel de Deus quem tinha era...
- Desce! - ordenara Deus.
Tudo é vaidade.
O Profeta
Diziam que ninguém entendeu a Viena e, portanto, o mundo, do seu tempo como Karl Kraus (1874-1936). Viveu para ver as primeiras vitórias do nazismo, mas a sua famosa sentença que na Viena de Hitler e de Freud se estava ensaiando o fim do mundo é anterior a isso. Foi uma profecia. Aquele mundo acabou mesmo, em cima do divã do Freud e em baixo das panzerdivisionem do Hitler. Kraus também disse que certos poderosos têm o hábito de mentir para a imprensa e depois acreditar no que leem. No caso, estava profetizando o Brasil de muitos anos depois.
Terminus
No ano 150 a.C., para sincronizar os ciclos lunares com os anos solares e organizar o resultado num método razoavelmente uniforme de medir o tempo, os romanos inventaram um mês de 22 ou 23 dias, chamado Mercedonius, que deveria ser inserido depois do dia 23 de fevereiro em anos intercalados - ou sempre que fosse preciso. No velho calendário romano, 23 de fevereiro era o último dia do ano e dia do Festival da Terminalia, quando se faziam sacrifícios a Terminus, deus dos limites. Mas quem determinava se era preciso ou não acrescentar o Mercedonius no calendário e tornar o ano um mês mais longo eram os pontífices, os romanos encarregados de administrar os cultos do Estado. E passou a ser comum os pontífices só alongarem os anos em que seus amigos estavam no poder. Com um ou mais Mercedonius, estendiam o mandato de seus preferidos sem necessidade de emendas de reeleição, compra de votos, etc. O método não funcionaria no Brasil de hoje por dois motivos. Um, a dificuldade em definir quem são, exatamente, os pontífices ou os poderes que devem administrar nossos cultos de Estado e, uma vez definido isto, a gritaria dos outros poderes. Dois, a absoluta desmoralização entre nós do deus Terminus ou de qualquer outro regulador de limites.
Domingo, 13 de abril de 2008.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.